POEMAS

Poemas


extrato de frutas musculares
extrato de frutas musculares
Leandro Aparecido de Souza
Leandro Aparecido de Souza
sem inconvenientes testemunhas para o meu
insólito crime.

aquela reservada família era bem
curiosa.
todos de olhos muito estreitos, iguais,
apesar de não serem do místico

oriente.

singelos olhos discretos, mas que pareciam falar de coisas
inconfessáveis.
sempre vinham enigmáticos à nossa solitária
lavanderia,
quando não um, outro gravisco membro,
trazendo toda a eloquente roupa da família bastidor para ser
lavada.

vinham em luxuoso SUV, acomodando o recendente cesto de roupas
usadas
no porta-malas espaçoso.
da última austera vez, foi o delgado filho mais novo quem veio furtivo,
no escaldante

sol

do selvagem meio-dia.
eu sentia insana necessidade de devassar
os tentadores segredos daquela
dissimulada família.
o incógnito filho mais novo estacou inquieto diante da craquelada
máquina de lavar,
com expressão preocupada.
— esqueci uma coisa muito importante em casa.
teria problema se deixasse o cesto aqui e voltasse em dez minutos?
— claro que não! fique à vontade,
respondi de pronto.

bem-vindo, aquele
cesto hermético
estava ali,
indefeso.

e eu possuído pela necessidade absoluta de
devassar
os segredos relacionais daquela família recalque.
não havia mais ninguém na decrépita lavanderia.
e eu ali com o meu nariz chacal, lupino;
com a minha perversão olfativa que me acompanhava desde a
sensória

infância.

miasma pairava no sufocante ar.
sumos corporais acres.
aquele extrato das frutas musculares.
a etérea zona ácida que cercava o
temperado cesto,
assemelhava campo espiritual.
mas de um espiritual concreto,

tangível.

havia vida sutil ali. vida escondida.
todo um diverso bioma, microscópico,
porém, ensurdecedoramente vivo.
esquivos corpos menores,
minúsculos,
contando a história química de circunspectos corpos
maiores.

aqueles eloquentes resíduos de seiva suor
e outras secreções humanas,
contavam confusas histórias de atividades

físicas.

me debrucei meliante sobre a suspeita margem
daquele caldo nutritivo primevo,
do mesmo tipo vibrante daquele do qual proveio
vulcânica
toda a vida imemorial do arcaico planeta Terra.

um arrebatado místico falaria solene do
intrincado barro
do qual Adão vaso foi feito.
todavia, meu lúbrico arrebatamento era
de outro tipo, mais sensorial.

não se tratava de
miasma
ruim. e nem bom.
mas apenas de maduro miasma.
formigante miríade de olências em
célere decomposição.
o inebriante vinho
é resultado de inexorável decomposição.
nem toda escatológica decomposição é para o
mal.
contudo, também há a decomposição ignominiosa, claro.
os fervilhantes solos dos
marmóreos cemitérios que o digam.

mas tudo isso estava ali amalgamado
e o cítrico compacto final não era ruim.
e nem bom. apenas era o que
era.

e invasivo eu mergulhei o trêmulo braço
no nevoento lago de caldo nutritivo primevo até que meus
nervosos

dedos

tocassem seu fundo plástico,
e lascivo, permiti que minha afogueada
face fosse
beijada
pela névoa miasmática.
do revolto fundo, fiz vir para a arejada superfície um
bolorento pé de meia.

branco, encardido, de marca esportiva.
esses dados científicos já me induziam a
pensar triunfante que a meia fungo era usada em
tênis dinâmico.
apesar de umas poucas e originais pessoas usarem
meias esportivas com sapato protocolar.
bem, ainda era inconclusivo. precisava de mais
informações delatoras.

hesitei ardente, olhei adrenalinado para a enxovalhada
porta da
solar

lavanderia.

por fim, levei a contaminada peça de uma vez ao
nariz feroz,
como se sorvesse feliz um cobiçado copo de surreal álcool num único
e sôfrego trago.
mergulhei meu nariz bravio ali sem nenhum meditativo pudor,
sem medo algum das colônias aguerridas de
germes camicases,
que certamente encontraram minhas narinas imperialistas
nas fronteiras folclóricas de sua ancestral aldeia.
logo fui invadido por uma insinuante onda.

fiquei aturdido com a copiosa quantidade de
aromas carnavais.

mas, ao cabo de alguns tortuosos segundos, já estava conseguindo,
confiante,
separá-los e, ainda que de forma bem incerta,
classificá-los.
concentrado, resolvi pensar primeiro na fragrância
mais sutil e
diluída,
aquela que tinha chances maiores de escapar da minha
memória nasal.
um leve eflúvio de artificiosa tinta. tinta para
tecidos.

afastei a meia do meu ávido nariz e contemplei-a
atentamente.
por cima do grosso encardido geral, constavam uns
riscos negros.
perdigueiro, os farejei bem. positivamente, ali a ofensiva

emanação

de tinturaria forte era mais severa.
tratava-se da nociva pigmentação do

frágil tecido interno.
ela se soltou na protagonista meia durante o bruto movimento de
insidiosa fricção.

só uma fricção muito intensa, que produzisse um
calor bem significativo, poderia fazer a tinta industrial derreter
daquela maneira fácil.
o avassalador movimento produzido durante uma vigorosa
corrida.

com certeza a intensa meia era usada em tênis atlético.
agora partiria para as auras intermediárias.
avaro, novamente apliquei o sentido do olfato à peça poluta,
com um pouco mais de
destemida voracidade dessa vez.

Mas senti olhares judiciais sobre mim.

assim: múltiplos.
orientais

o rapaz judas voltou trazendo
consigo toda a família
thriller!
sem inconvenientes testemunhas para o meu
insólito crime.

aquela reservada família era bem
curiosa.
todos de olhos muito estreitos, iguais,
apesar de não serem do místico

oriente.

singelos olhos discretos, mas que pareciam falar de coisas
inconfessáveis.
sempre vinham enigmáticos à nossa solitária
lavanderia,
quando não um, outro gravisco membro,
trazendo toda a eloquente roupa da família bastidor para ser
lavada.

vinham em luxuoso SUV, acomodando o recendente cesto de roupas
usadas
no porta-malas espaçoso.
da última austera vez, foi o delgado filho mais novo quem veio furtivo,
no escaldante

sol

do selvagem meio-dia.
eu sentia insana necessidade de devassar
os tentadores segredos daquela
dissimulada família.
o incógnito filho mais novo estacou inquieto diante da craquelada
máquina de lavar,
com expressão preocupada.
— esqueci uma coisa muito importante em casa.
teria problema se deixasse o cesto aqui e voltasse em dez minutos?
— claro que não! fique à vontade,
respondi de pronto.

bem-vindo, aquele
cesto hermético
estava ali,
indefeso.

e eu possuído pela necessidade absoluta de
devassar
os segredos relacionais daquela família recalque.
não havia mais ninguém na decrépita lavanderia.
e eu ali com o meu nariz chacal, lupino;
com a minha perversão olfativa que me acompanhava desde a
sensória

infância.

miasma pairava no sufocante ar.
sumos corporais acres.
aquele extrato das frutas musculares.
a etérea zona ácida que cercava o
temperado cesto,
assemelhava campo espiritual.
mas de um espiritual concreto,

tangível.

havia vida sutil ali. vida escondida.
todo um diverso bioma, microscópico,
porém, ensurdecedoramente vivo.
esquivos corpos menores,
minúsculos,
contando a história química de circunspectos corpos
maiores.

aqueles eloquentes resíduos de seiva suor
e outras secreções humanas,
contavam confusas histórias de atividades

físicas.

me debrucei meliante sobre a suspeita margem
daquele caldo nutritivo primevo,
do mesmo tipo vibrante daquele do qual proveio
vulcânica
toda a vida imemorial do arcaico planeta Terra.

um arrebatado místico falaria solene do
intrincado barro
do qual Adão vaso foi feito.
todavia, meu lúbrico arrebatamento era
de outro tipo, mais sensorial.

não se tratava de
miasma
ruim. e nem bom.
mas apenas de maduro miasma.
formigante miríade de olências em
célere decomposição.
o inebriante vinho
é resultado de inexorável decomposição.
nem toda escatológica decomposição é para o
mal.
contudo, também há a decomposição ignominiosa, claro.
os fervilhantes solos dos
marmóreos cemitérios que o digam.

mas tudo isso estava ali amalgamado
e o cítrico compacto final não era ruim.
e nem bom. apenas era o que
era.

e invasivo eu mergulhei o trêmulo braço
no nevoento lago de caldo nutritivo primevo até que meus
nervosos

dedos

tocassem seu fundo plástico,
e lascivo, permiti que minha afogueada
face fosse
beijada
pela névoa miasmática.
do revolto fundo, fiz vir para a arejada superfície um
bolorento pé de meia.

branco, encardido, de marca esportiva.
esses dados científicos já me induziam a
pensar triunfante que a meia fungo era usada em
tênis dinâmico.
apesar de umas poucas e originais pessoas usarem
meias esportivas com sapato protocolar.
bem, ainda era inconclusivo. precisava de mais
informações delatoras.

hesitei ardente, olhei adrenalinado para a enxovalhada
porta da
solar

lavanderia.

por fim, levei a contaminada peça de uma vez ao
nariz feroz,
como se sorvesse feliz um cobiçado copo de surreal álcool num único
e sôfrego trago.
mergulhei meu nariz bravio ali sem nenhum meditativo pudor,
sem medo algum das colônias aguerridas de
germes camicases,
que certamente encontraram minhas narinas imperialistas
nas fronteiras folclóricas de sua ancestral aldeia.
logo fui invadido por uma insinuante onda.

fiquei aturdido com a copiosa quantidade de
aromas carnavais.

mas, ao cabo de alguns tortuosos segundos, já estava conseguindo,
confiante,
separá-los e, ainda que de forma bem incerta,
classificá-los.
concentrado, resolvi pensar primeiro na fragrância
mais sutil e
diluída,
aquela que tinha chances maiores de escapar da minha
memória nasal.
um leve eflúvio de artificiosa tinta. tinta para
tecidos.

afastei a meia do meu ávido nariz e contemplei-a
atentamente.
por cima do grosso encardido geral, constavam uns
riscos negros.
perdigueiro, os farejei bem. positivamente, ali a ofensiva

emanação

de tinturaria forte era mais severa.
tratava-se da nociva pigmentação do

frágil tecido interno.
ela se soltou na protagonista meia durante o bruto movimento de
insidiosa fricção.

só uma fricção muito intensa, que produzisse um
calor bem significativo, poderia fazer a tinta industrial derreter
daquela maneira fácil.
o avassalador movimento produzido durante uma vigorosa
corrida.

com certeza a intensa meia era usada em tênis atlético.
agora partiria para as auras intermediárias.
avaro, novamente apliquei o sentido do olfato à peça poluta,
com um pouco mais de
destemida voracidade dessa vez.

Mas senti olhares judiciais sobre mim.

assim: múltiplos.
orientais

o rapaz judas voltou trazendo
consigo toda a família
thriller!

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