POEMAS

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duas pedras de gelo
duas pedras de gelo
Leandro Aparecido de Souza
Leandro Aparecido de Souza
eu sabia que ela viria embrulhada nas
sombras.
por isso assumi a mais cínica e completa
imobilidade de que fui capaz.
porque o inclemente frio

mordia.

com dentes afiados.
e logo o tract prazenteiro da porta de seu
quarto se abrindo.

nenhuma surpresa. as chinelas gastas
se arrastando no piso.
me fiz ainda mais imóvel, como se fosse possível,
com um sorriso de conforto invisível no breu.

me passaria por alguém que já ia no
sexto
ou sétimo sono profundo.
como das outras nostálgicas vezes. o

tract

da porta de meu quarto e uma ansiedade
gostosa em mim.
resmungo surdo dela. sussurro. muito baixinho,
para si mesma.
na certeza ingênua de que eu dormia de
fato.

eu me comovia até a raiz da minha mudez, até o último
floco
de coração.
derretia por aquele velar pelo meu sono.

(— tá frio demais… demaissss…)
um tremorzinho meio afetado no final da semi-inaudível
fala.
e o toque materno, protetor, xamânico,
aconteceu.
e o arfar asmático sofrível.
minha singular mãe era uma mulher de peito

pesado.

mas estava levemente controlada,
apesar de nunca totalmente controlada.
com certeza tinha usado o
salvífico inalador há pouco tempo.

eu achava até bonito, aquele doído
sacrifício que fazia por mim.
abandonar as quentinhas
cobertas
e vir arrastando seu peito pesado.

pra cuidar de mim.

às vezes eu me sentia fatalmente culpado.
poderia pôr fim àquilo. dizer: manhê,
eu tô sempre acordado.
deixa que me viro.

mas não podia.
precisava daquele momento de carinho
secreto.
e ela também.
quem sabe até mais do que eu.

mas voltemos ao toque materno!
paramos no toque materno.
primeiro, com muito doce cuidado, ela apalpava meus pés.
(— duas pedras de gelo! como pode?
a pessoa ir dormir num frio desses e não colocar meia?!)
sempre no autodiálogo do sussurro, para não me

acordar.

e ia às trôpegas apalpadelas, no escuro,
em busca da minha caótica gaveta de
meias.
mas o seu terno calor já havia tomado conta do
quarto.
já não era necessária a meia.
mas ela não precisava saber disso.
e jamais saberia.

calça habilmente os meus pés.
como a pessoa podia acreditar que uma movimentação
tão agitada daquelas, não acordaria o outro?!
uma fé muito bonitinha.
levantava os meus dois disformes pés e encaixava
a coberta por baixo

(— que pé feio, meu Deus! é o pé do pai…)

mas a parte que eu mais gostava era o final.
ela afofava o arrumado.
sim,
dava uma carinhosa pressionada em todos os lados,
para ajustar a coisa.
mas eu não tinha indefesos cinco anos de idade,
nem dez, nem mesmo quinze.
já contava vinte e dois mal-acostumados anos,

marmanjo.

ela sempre repetia: até quando vou ficar
cuidando de marmanjo?
e cuidou.
até o breve fim.
num dos momentos de maior dor da minha vida,
no fim de um longo relacionamento, eu entendi.
nunca,
absolutamente nunca, ninguém mais,

quem quer que seja,

faria aquilo por mim.

e chorei amargamente, porque minha
mãezinha já se tinha ido.
e de fato, escrito em pedra,
ninguém voltará a fazer isso por mim.
e é certo que seja dessa forma.

não poderia ser diferente.

o que só uma mãe faz.
eu sabia que ela viria embrulhada nas
sombras.
por isso assumi a mais cínica e completa
imobilidade de que fui capaz.
porque o inclemente frio

mordia.

com dentes afiados.
e logo o tract prazenteiro da porta de seu
quarto se abrindo.

nenhuma surpresa. as chinelas gastas
se arrastando no piso.
me fiz ainda mais imóvel, como se fosse possível,
com um sorriso de conforto invisível no breu.

me passaria por alguém que já ia no
sexto
ou sétimo sono profundo.
como das outras nostálgicas vezes. o

tract

da porta de meu quarto e uma ansiedade
gostosa em mim.
resmungo surdo dela. sussurro. muito baixinho,
para si mesma.
na certeza ingênua de que eu dormia de
fato.

eu me comovia até a raiz da minha mudez, até o último
floco
de coração.
derretia por aquele velar pelo meu sono.

(— tá frio demais… demaissss…)
um tremorzinho meio afetado no final da semi-inaudível
fala.
e o toque materno, protetor, xamânico,
aconteceu.
e o arfar asmático sofrível.
minha singular mãe era uma mulher de peito

pesado.

mas estava levemente controlada,
apesar de nunca totalmente controlada.
com certeza tinha usado o
salvífico inalador há pouco tempo.

eu achava até bonito, aquele doído
sacrifício que fazia por mim.
abandonar as quentinhas
cobertas
e vir arrastando seu peito pesado.

pra cuidar de mim.

às vezes eu me sentia fatalmente culpado.
poderia pôr fim àquilo. dizer: manhê,
eu tô sempre acordado.
deixa que me viro.

mas não podia.
precisava daquele momento de carinho
secreto.
e ela também.
quem sabe até mais do que eu.

mas voltemos ao toque materno!
paramos no toque materno.
primeiro, com muito doce cuidado, ela apalpava meus pés.
(— duas pedras de gelo! como pode?
a pessoa ir dormir num frio desses e não colocar meia?!)
sempre no autodiálogo do sussurro, para não me

acordar.

e ia às trôpegas apalpadelas, no escuro,
em busca da minha caótica gaveta de
meias.
mas o seu terno calor já havia tomado conta do
quarto.
já não era necessária a meia.
mas ela não precisava saber disso.
e jamais saberia.

calça habilmente os meus pés.
como a pessoa podia acreditar que uma movimentação
tão agitada daquelas, não acordaria o outro?!
uma fé muito bonitinha.
levantava os meus dois disformes pés e encaixava
a coberta por baixo

(— que pé feio, meu Deus! é o pé do pai…)

mas a parte que eu mais gostava era o final.
ela afofava o arrumado.
sim,
dava uma carinhosa pressionada em todos os lados,
para ajustar a coisa.
mas eu não tinha indefesos cinco anos de idade,
nem dez, nem mesmo quinze.
já contava vinte e dois mal-acostumados anos,

marmanjo.

ela sempre repetia: até quando vou ficar
cuidando de marmanjo?
e cuidou.
até o breve fim.
num dos momentos de maior dor da minha vida,
no fim de um longo relacionamento, eu entendi.
nunca,
absolutamente nunca, ninguém mais,

quem quer que seja,

faria aquilo por mim.

e chorei amargamente, porque minha
mãezinha já se tinha ido.
e de fato, escrito em pedra,
ninguém voltará a fazer isso por mim.
e é certo que seja dessa forma.

não poderia ser diferente.

o que só uma mãe faz.

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